Salvador - 25 de maio de 2018
06 de Março de 2018 - 11:44

Bodas de diamantes na Epcar

ACB OPINIÃO 297

Adary Oliveira – Presidente da ACB

No fim dos anos 1950 fui levado a inscrever-me no concurso para ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), com o propósito de reduzir as despesas da família para com a educação. Após ser aprovado no exame intelectual em Salvador viajei para o Rio de Janeiro pegando carona num C-47 da Força Aérea Brasileira (FAB), avião de transporte das postagens do Correio Aéreo Nacional (CAN), afim de ser submetido aos exames médicos. Durante a realização do exame de vista, o mais rigoroso de todos, estranhei as gargalhadas das duas auxiliares de enfermagem encantadas com meu sotaque e uso do abecedário baiano. Isso não me impediu de lograr aprovação e me fez passar a receber carinho especial das moças nos encontros casuais nos corredores do Ministério da Aeronáutica.

Entretanto, um leve desvio do septo nasal me fez ser reprovado nos exames tendo recebido a sentença de inapto por 20 dias. A tristeza que passei a exibir sensibilizou uma das enfermeiras, amiga conquistada pelo uso do ABC baiano. Não fique triste, disse ela, vá ao 2º andar e peça ao coronel chefe do serviço médico da FAB para lhe aprovar. Se ele concordar, você poderá fazer a cirurgia depois num dos hospitais da Aeronáutica. Ele concordou e eu fui operado em 1960 no Campo dos Afonsos. Foi assim que há 60 anos atrás consegui ingressar na Epcar tendo ido a Barbacena no último dia 03/03 para as comemorações das bodas de diamante com meus ex-colegas, sobreviventes dos tempos e dos muitos voos e missões militares.

O ensino em BQ, como chamávamos a escola de Barbacena, era planejado com perfeição. No primeiro dia de aula além de serem entregues todos os livros, apostilhas, cadernos e demais materiais de estudo, era distribuído completo programa de atividades do ano com a marcação dos dias de aulas, provas, feriados, licenciamentos e férias, mostrando o esmero da organização. Ao falar em nome da turma, agradecendo ao comandante da Epcar brigadeiro Moura, a acolhida que dera às nossas comemorações, procurei dizer por quê voltávamos a BQ após 60 anos. Em primeiro lugar, porque a escola além de nos ter ensinado o conteúdo das matérias matemática, física, química, geografia, etc., nos ensinara a praticar o companheirismo, a disciplina, os limites dos deveres e obrigações, os conceitos de ética indicando o que era certo e o que era errado, enfim, tudo que nos era necessário para a formação de um primoroso cidadão.

Em segundo lugar, por ser uma escola nacional, não tínhamos nas salas de aula os amigos e conhecidos de um bairro ou de uma mesma cidade. Nossos colegas eram de todo o Brasil, da nascente do Rio Ailã ao Arroio Chuí, da Ponta do Seixas à nascente do Rio Moa, colaborando para a nossa formação com culturas ricas e diversas. A nossa volta a BQ significava poder viver a alegria do reencontro, não só dos que seguiram a carreira militar, mas também a de médico, engenheiro, advogado, etc., espalhados por todos os recantos do Brasil.

Por fim, nós amávamos Barbacena, e estávamos ansiosos para revermos a Cidade das Rosas, fria e ao mesmo tempo aconchegante, nas altitudes da Serra da Mantiqueira, no local vizinho da Fazenda Cabangu onde nascera o gênio brasileiro Santos Dumont Pai da Aviação.

A Epcar é um exemplo de escola e atesta a possibilidade de se oferecer no Brasil ensino público da melhor qualidade. Ali se tem a comprovação de que o ensino transforma a todos, forma cidadãos e que a educação, além de contribuir para formação profissional e intelectual das pessoas vai muito além, permitindo aos indivíduos agir com liberdade de pensamento e ser dono de seu próprio arbítrio.

 

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