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A subsistência de Zé de Tito e o biodiesel

  • 23 de setembro de 2016 - 16:42

Adary Oliveira – VP da ACB – Doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, Espanha

Nos anos 50 o Bar Continental era o buteco de maior prestígio de Ruy Barbosa, onde passei minha infância. Além de mais visitado era o mais inovador. Instalou a primeira máquina de fazer picolé da região, as primeiras lâmpadas fluorescentes e tinha um salão de sinuca e bilhar de fazer inveja ao de Abel, em Salvador. Meu pai costumava frequentar o Continental nos fins de tarde para tomar uma cerveja com amigos e de vez em quando eu fazia companhia a ele, não na cerveja, mas para avisá-lo que estava na hora de ir para casa, hora do jantar.

Certo dia estava com ele o Zé de Tito, fazendeiro do Distrito do Paraíso. Ao me ver sob o reflexo da luz fluorescente dirigiu-se ao meu pai dizendo: “Arquimedes, manda esse menino passar umas férias lá na minha fazenda, ele está muito pálido e necessita de tomar um leite de curral e coalhada, garanto que ele vai ficar corado”.

Em janeiro de 1951 eu e meu irmão mais velho Ary fomos para a fazenda Tingui onde passamos dois meses de férias. No primeiro dia, dormindo numa cama de tábuas forrada com couro de boi, um dos filhos de Zé de Tito me advertiu, depois de apagar o fifó (pequeno candeeiro de querosene) dizendo: não durma com o rosto virado para a parede senão você vai acordar tarde amanhã. Referia-se ao acordar cedo com o clarão que faz o sol antes de nascer. Era hora de ir para o curral ordenhar as vacas.

Zé de Tito vivia numa casa com mulher oito filhos, sete homens do casal e uma menina de criação. Produzia em suas terras quase tudo que precisava para subsistência da família. Numa casa de farinha ralava a mandioca colhida em plantação próxima e produzia, além da farinha, beijus de massa e tapioca. Num pequeno engenho fazia raspadura, também de plantação da cana de sua roça. Vez por outra matava uma rês e perfazia deliciosa carne-de-sol que era conservada por duas semanas fora da geladeira. O café colhido na chácara do fundo do quintal era moído no pilão. O leite e a coalhada não faltavam no café da manhã, sempre com abóbora, batata doce, requeijão e ovos de galinha ou saqué (galinha de Angola) fritos na manteiga de garrafa. Não faltava o milho plantado no dia de São José para os pratos típicos das festas juninas, feijão, frutas e hortaliças. Na sua economia ele comprava pouca coisa na feira do Paraíso, aos domingos: sal, pão e tecidos. Sua esposa confeccionava as roupas dos meninos numa máquina de costura de tração manual. O transporte era o cavalo e a água do barreiro era esfriada em potes e moringas de barro.Quase não ia às farmácias pois todos tinham uma boa saúde e, se necessário, tomavam chá de erva-cidreira para o estômago e insônia, chá de quebra-pedra para os rins,curavam os ferimentos com capim-açú pisado com sal e faziam assepsia dos dentes com folhas do juazeiro.

A maior parte das terras de Zé de Tito eram cultivadas com capim guiné ou sempre-verde cobrindo os pastos que alugava ou dava de meia para outros fazendeiros da região. Nas terras que sobravam costumava plantar mamona, fumo (tabaco) e outras culturas não comestíveis. Ele não era chegado à leitura, mas sabia calcular como ninguém. Entre o fumo e a mamona escolhia o de preço que proporcionasse maior margem por tarefa (4.356m2) plantada.

Recentemente, o que ninguém entendia era por que o governo prometia fortalecer a economia familiar fabricando biodiesel de óleo de mamona se o preço continuava o mesmo ou menor e nunca se teve dificuldade de vender a oleaginosa. Não dava para entender também, por que se iria fabricar biodiesel de óleo de mamona se o óleo de soja custava metade do preço e era produzido em larga escala. O que estava acontecendo parecia uma repetição da campanha que se fez no passado em que o governo usava o refrão “plante que o governo garante” impresso em cartazes.

Passados 65 anos nada mudou. O Osvaldo, filho de Zé de Tito, que me deu a dica de que lado dormir para acordar cedo, continua morando no mesmo lugar, sem luz e sem a poluição do motor de explosão. O seu requeijão, manufaturado com a coalhada batida na cabaça, é o mais procurado aos sábados na feira de Wagner, município próximo à fazenda que herdou de seu pai. Continua vivendo, sem entender bem as coisas inventadas pelos homens da cidade.

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