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Indústria do tabaco baiana aposta em charuto para consumo gourmet

Produtores tentam retomar crescimento, de olho no mercado internacional

  • 11 de dezembro de 2017 - 16:34
(Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)
Buscar fôlego, respirar… Taí duas coisas que alguns fumantes têm dificuldade de conseguir. Ironicamente, é o que também busca a indústria tabagista na Bahia – responsável por mais de 85% da produção de tabaco para charuto do Brasil – nos últimos anos. E o novo sopro de vida pode vir com a harmonização do charuto com produtos gourmet, como o café, a cachaça e o chocolate.

Com 450 anos de atividade e atualmente em recuperação, depois de a produção cair em 2010 a um dos piores níveis da história, o setor fumageiro da Bahia, primeiro estado do Brasil a cultivar o tabaco, tenta emplacar os chamados “4 Cs da Bahia”, estratégia apresentada por produtores do Recôncavo no início do mês na cidade de Cachoeira. O projeto foi apresentado a um grupo seleto de degustadores de charuto do país – donos de tabacarias do Sudeste, consultores e sommeliers de renome internacional.

A ideia é aliar o consumo do charuto de primeira qualidade produzido na Bahia com outros produtos gourmet também de origem baiana. Não à toa, o nome do evento foi “Festival Origens”, iniciativa do Sindicato da Indústria de Tabaco do Estado da Bahia (Sinditabaco-BA), em parceria com empresas de café, chocolate e cachaça.

Produzido em 23 cidades do Recôncavo, o produto é reconhecido mundialmente, sobretudo o do tipo Mata Fina. A produção atual é de 4 mil toneladas de folha in natura (97% vai para exportação) e 13 milhões de unidades de charuto premium artesanais, com 60% deles exportado sobretudo para a Alemanha.

Segundo o Sinditabaco, entre os 10 charutos apontados como os melhores do mundo, todos levam o tabaco baiano em alguma parte – capa, capote ou no enchimento.

Estufa onde folhas e o fumo são mantidos durante processo de produção do charuto (Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

Panorama
A indústria do tabaco gera 5 mil empregos diretos e indiretos na Bahia, com a maior parte da mão de obra composta por mulheres, quase todas negras. Além dos trabalhadores nas fábricas, o setor conta com a produção de cerca de 2.300 famílias que cultivam o tabaco em suas propriedades, em parceria com as empresas.

O auge da produção de folha de tabaco do estado, segundo o livro “Análise da cadeia produtiva do tabaco da Bahia” (2013), de Jean Baptiste Nardi, foi em 1910, quando a quantidade de tabaco chegou a 30.734. A competição com o cigarro, barreiras tarifárias e campanhas antitabagismo fizeram a produção cair a 2.060 toneladas em 2010, semelhante a da época colonial.

A abertura de novos mercados, como o da China, e a criação em 2014 da rota do turismo do tabaco no Recôncavo, que atraiu mais de 9 mil apreciadores mundiais do charuto, tem ajudado a impulsionar o setor.

“O setor do tabaco vem se reerguendo, mas ainda temos muitos problemas para enfrentar, sobretudo com governos, que proibiu a propaganda e impõe altas taxas de impostos, o que nos faz menos competitivos com relação a outros países produtores, como Cuba”, disse o diretor executivo do Sinditabaco na Bahia Marcos Augusto Souza.

O setor busca atualmente, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), o registro de Indicação Geográfica (IG) de Denominação de Origem (DO), cujo Termo de Delimitação Geográfica Brasil-Bahia já foi reconhecido pelo Governo da Bahia.

O registro é como um selo de certificação que protege a originalidade de um produto de determinada localidade, que possui características de solo, clima, culturais e históricas, tornando-o único e pertencente apenas àquela região. O resultado deve sair dentro de dois anos.

Apreciação de luxo
Na região, as cidades de Cachoeira e São Félix, separadas pelo Rio Paraguaçu, são o centro comercial do charuto no Recôncavo, onde há 21 indústrias produtoras.

Durante séculos, o porto de Cachoeira foi a principal porta de escoamento de produtos diversos do Recôncavo e do Sertão baiano para o exterior, sobretudo tabaco e cana-de-açúcar. Hoje não exporta mais cana, mas o tabaco e o charuto são apreciados – além de na Alemanha e China – em países da América do Norte, Oriente Médio e Ásia.

Apreciados, muitos deles, como itens de luxo ou gourmet, produtos especiais cuja fabricação tem origem e forma de cultivo reconhecidos por selos de controle de qualidade. É o caso também do chocolate Chor, da cachaça Rio do Engenho (ambos de Ilhéus, no Sul baiano) e do café Latitude 13 (de Mucugê, na Chapada Diamantina), utilizados durante a harmonização.

Consumir esses produtos de forma isolada exige da pessoa habilidade com o paladar, pois a degustação é algo que se requer certo treinamento para reconhecer aromas e sabores, os quais podem vir carregados de informações – época de produção, composição, local de origem, a história do produto.

Já a harmonização, contudo, não exige muito, apenas experimentações acompanhadas de orientações prévias de quem tem o paladar mais aguçado e pode auxiliar a pessoa a encurtar caminhos. O café com charuto, por exemplo, nunca deve ser harmonizado com o primeiro à temperatura muito alta.

Quem dá a dica é o sommelier Cesar Adames, que estudou o universo das bebidas destiladas em Londres, leciona em cursos de gastronomia e já foi jurado do Habanos Sommelier, concurso mundial realizado anualmente em Cuba: “Assim como a cerveja, que com 4ºC perde um pouco o sabor, é difícil saborear o café a temperaturas altas.”

Sommelier Cesar Adames, que já foi jurado do Habanos Sommelier, prova e aprova charuto do Recôncavo (Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

“O ideal para degustação com charuto”, diz Adames, “é esperar a temperatura do café abaixar mais um pouco. Vai fumando enquanto aguarda a temperatura abaixar, sente o sabor do charuto, aí dá uns três goles no café, aprecia o sabor, deixa-o circular na boca, depois fuma para os dois juntos formarem um sabor só e harmonizar”.

Importante saber também no momento da harmonização que não se pode usar produtos cuja concentração seja baixa ou alta demais. Tem de haver equilíbrio para que o sabor de um não se sobreponha ao do outro. Na degustação do charuto com chocolate foi unânime a apreciação pelo que tinha na composição 70% de cacau.

Outro ponto de destaque para a harmonização com o charuto é que a pessoa deve saber que o consumo dele é dividido em três fazes: primeiro, segundo e terceiro terço – a concentração de sabores aumenta à medida é queimado. Apenas no caso dos charutos menores – do tamanho de cigarrilhas – o consumo é por igual.

“Assim, o chocolate com 44% de cacau, mais leve e doce, harmoniza quando se está começando a fumar o charuto. Já o 88% deixa para consumir quando o charuto estiver no final”, completou Adames, que fez um lembrete: “Não se deve mastigar o chocolate, tem de esperar que ele derreta na boca”.

Harmonização cara
Único brasileiro a conquistar o Habanos Sommelier (edição 2015), o advogado tributarista Walter Saes, que é paulista, destacou que a harmonização também depende do tipo de charuto, a qualidade com que é feito: “um charuto com mais tempo de envelhecimento vai dar um sabor mais forte, então é bom saber isto antes da harmonização”.

Sommelier Walter Saes acredita que harmonização depende do tipo de charuto(Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

Especializado em charutos e bebidas, o sommelier já deu R$ 10 mil em uma garrafa de vinho do Porto de 1912, harmonizada com charutos cubanos Cohiba Gran Reserva (um dos melhores do mundo), cuja caixa com 25 unidades custou o mesmo valor.

“O ideal da harmonização é também se sentir livre para experimentações, e estou sempre fazendo as minhas”, falou.

Para a sommelier e consultora de gastronomia Mikaela Paim, também de São Paulo, é importante que a pessoa faça harmonizações com produtos que goste. No caso da cachaça, ela e outros participantes da harmonização apreciaram mais a do tipo Reserva, com 38% de graduação alcóolica e envelhecida por 3 anos em um ‘blend’ (mistura, em inglês) de madeiras nativas da Mata Atlântica: bálsamo, louro canela, itaúba e amburana. A Reserva de 40% também foi bem avaliada.

“A pessoa tem de estar aberta a fazer experimentos. É bom ouvir a opinião de quem entende mais do assunto para saber o que são produtos feitos com qualidade, a procedência (ou a origem). O resto é deixar o paladar fluir. Dar receita de que certo produto vai harmonizar com outro poder ser arriscado. Então minha dica é: experimente e harmonize do seu gosto”, declarou Mikaela.

A sommelier e consultora de gastronomia Mikaela Paim provando charuto com vinho (Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

Donos de tabacaria também tiveram a mesma impressão dos sommeliers. “Cachaça, café e chocolate são ótimas opções para se harmonizar com charutos. Em São Paulo as pessoas costumam fazer harmonizações com vinhos, uísques e cervejas e outras comidas, principalmente massas”, comentou Paulo Gama Alves, dono da Tabacaria Lee, há 23 anos no ramo.

Alves, que possui quatro unidades da tabacaria, considera as harmonizações algo importante para movimentar o setor, que também foi afetado com a crise econômica nacional.

“Há dois anos, eu tinha clientes que consumiam R$ 5 mil por mês, mas com a crise passaram a consumir R$ 3 mil, R$ 2.500”, destaca Paulo.

No ramo há apenas um ano, a Casa Murdok busca atrair públicos um ‘blend’ de tabacaria, barbearia e pub em um lugar só no bairro de Moema em São Paulo. Gerente da tabacaria, Arthur Awdissian vem praticando harmonizações com bebidas, o que ele considera como casamento perfeito quando se escolhe produtos bons.

“Temos realizado eventos de harmonizações e isso tem dado muito certo, e a ideia é aperfeiçoar cada vez mais, oferecer opções de harmonizações cada vez mais variadas e com produtos de qualidade, e essa experiência com o chocolate, o café (que já vem sendo feita) e a cachaça foi muito oportuna”, comentou.

Gerente da Casa Murdok, em São Paulo, Arthur Awdissian também veio conhecer produtos baianos (Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

Público
Quando se pensa em consumo de charuto, inevitável não lembrar de personalidades como os líderes da Revolução Cubana Che Guevara e Fidel Castro ou o britânico Winston Churchill, homens com mais idade. Em muitas imagens, eles aparecem com um charuto na mão.

Segundo o Sinditabaco, o público que fuma charuto no Brasil hoje tem geralmente idade acima dos 30 anos, são pessoas com mais experiências de vida e que podem bancar o próprio consumo – o preço da unidade do charuto em tabacarias como a Lee e da Murdok, por exemplo, varia de R$ 25 a R$ 450. Os mais caros são os cubanos.

O soteropolitano Ueine Lima, 29, faz parte da nova geração de consumidores de charuto. Em suas visitas a Cachoeira ele sempre visita tabacarias como a da empresa Leite e Alves, uma das mais tradicionais da região – as atividades iniciaram no final do século 19 e a empresa já ocupou no auge da produção um quarteirão inteiro.

A sede antiga da Leite e Alves é onde hoje funciona a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) em Cachoeira, onde Lima degusta charutos há dois anos, por influência de um amigo que o apresentou ao produto feito da mais importante cultura agrícola não alimentícia do mundo.

“Me interessei muito pelo sabor do charuto e o degusto mais quando venho aqui em Cachoeira. Por ser um produto caro, não é algo que podemos consumir muito, como ocorre com o cigarro, que custa uns R$ 10 o maço com 20 unidades”, ele declarou, informando depois que gosta de harmonizar o charuto com uísque.

Sindicato tenta convencer Anvisa de que cigarrilha é charuto pequeno
O Sinditabaco entrou com uma ação na Justiça Federal, em 2016, contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para tentar fazer com que a cigarrilha feita do charuto seja taxada como o charuto normal.

Para os fumageiros, a cigarrilha é um charuto pequeno, mas a Anvisa, enquanto não se decide, considera o produto como cigarrilha, o que faz a Receita Federal impor ao charuto pequeno os mesmos impostos do cigarro, que são mais elevados.

“No momento, as discussões sobre a definição de charutos, cigarros e cigarrilhas está sob finalização na Diretoria Colegiada da Anvisa e em breve será inserida na atualização da norma que estabelece os quesitos  para registro de produtos fumígenos”, declarou a agência.

De acordo com a Receita, o principal imposto pago pelos fabricantes de cigarrilhas e charutos é o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Em 2017, 63% dos tributos federais pagos por esse setor no Brasil são referentes a esse imposto. O setor de cigarros pagou este ano R$ 5,5 bilhões de impostos e o de charutos R$ 4,4 milhões.

Além do IPI, as empresas de tabaco pagam Imposto sobre a Renda (IR), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), Contribuição para o PIS e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Outros impostos federais também podem ser devidos a depender das operações realizadas, como, por exemplo, Imposto sobre a Importação.

Menos consumo
A quantidade de consumo por pessoa é um dos pontos que o Sinditabaco considera como positivo quando surgem críticas contra o uso do tabaco, cujos defensores do uso dizem ainda que o produto causa menos danos à saúde porque a pessoa que degusta não inala a fumaça, como ocorre com o cigarro.

Por ter custo alto, as pessoas consomem bem menos charutos que cigarros, destaca o Sinditabaco. A Anvisa, que, na opinião dos fumageiros está fazendo de tudo para acabar com o setor, com proibições de propaganda e nível de exigências cada vez maior para a produção, considera que “os charutos são muito tóxicos, assim como os cigarros”.

“A diferença é que há doenças mais associadas a cigarros, como enfisema pulmonar, e outras a charutos, como câncer de boca, de língua, garganta e esôfago. Estudo desenvolvido nos Estados Unidos verificou que fumantes de charutos têm risco duas vezes maior de desenvolver câncer de pulmão que não-fumantes. Em estudo semelhante desenvolvido na Europa o risco foi nove vezes maior”, diz a nota da Anvisa.

Segundo a agência, “quem fuma apenas 1 a 2 charutos por dia aumenta duas vezes o risco de ter câncer oral e de esôfago, comparado a quem não fuma. Quem fuma de 3 a 4 charutos/dia aumenta mais de 8 vezes o risco de ter câncer oral e 4 vezes a chance de ter câncer no esôfago”.

Isso acontece, de acordo com a Anvisa, “porque o fumante de charutos geralmente não traga a fumaça, que é mais irritante que a fumaça de cigarro, mas a mantém por mais tempo na boca, onde os compostos tóxicos e cancerígenos são mais absorvidos. Além disso, a quantidade de tabaco queimada durante o consumo de um charuto é maior que a quantidade queimada em um cigarro”.

Um charuto contém entre 5 e 17 gramas de tabaco, e um cigarro contém em média 0,8 a 1,0, afirma a Anvisa, que completa: “Por isso, os teores dos compostos tóxicos e cancerígenos são também maiores. Um cigarro contém cerca de 1 mg de nicotina, enquanto que um charuto de marca popular entre 100 e 200 mg de nicotina, já tendo sido encontrado charutos com 444mg”.

A nicotina na fumaça de um único charuto pode ser comparável a um cigarro e até um maço ou mais de cigarros, diz a agência, segundo a qual “fumar um charuto pode equivaler a fumar 20 cigarros”.

“Outro fator de elevada toxicidade nos charutos é que os teores das N-Nitrosaminas Específicas do Tabaco (TSNA), que estão entre as substâncias conhecidas de maior potencial cancerígeno para o homem, são mais elevados na fumaça dos charutos que na fumaça de cigarros”, diz a nota.

***

Baiano de 92 anos que fumou primeiro charuto aos 18 esbanja saúde
O momento mais emocionante para os participantes do Festival de Origens em Cachoeira não foi a harmonização do charuto com chocolate, café e cachaça. Ver esbanjando saúde um homem de 92 anos que começou a das as primeiras pitadas aos 18 valeu a viagem para todos.

Walter Lima, 92, trabalhou por décadas em fábricas de charuto do Recôncavo (Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

“Vamos acender um charuto em homenagem a esse momento”, sugeriu um participante mais empolgado, após seu Walter Lima contar um pouco da sua história, com detalhes que demonstram que a memória do idoso não foi afetada pela idade. A aparência dele é de um senhor de 65 a 70 anos.

“Meu médico me disse esses dias que estou ótimo, sem problema algum. Está tudo controlado”, conta ele.

Walter fuma atualmente três charutos por dia, na maioria das vezes acompanhado de um bom café, e diz ter comprado poucos na vida. “Charuto bom é forte, com gosto mais encorpado, desses que gosto”, afirmou.

Viúvo há sete meses, seu Walter trabalhou por décadas em empresas da região, sendo a principal delas a Dannemann, a mais antiga fábrica de charutos do Brasil, fundada pelo alemão Gerhard Dannemann na segunda metade do século 19. A sede da empresa, atualmente sob o controle de um grupo Burger Söhne Holding AG, da Suíça, fica em São Félix.

Dannemann, em São Félix, é a mais antiga fábrica de charutos do Brasil, fundada pelo no século 19 (Foto: Mário Bittencourt/CORREIO)

“Quando comecei, era tanta gente que trabalhava na empresa que quando passavam para ir para a fábrica parecia uma procissão de religiosos”, lembra seu Walter, que era motorista e mecânico da Dannemann. Hoje com 100 funcionários, a firma chegou a ter 4.000 empregados nos tempos áureos.

“Nunca gostei de cigarro e não bebo álcool. Gosto de tomar café para fumar. O segredo da minha saúde são minhas caminhadas. Andava uns 5 quilômetros por dia. Quando saí da Dannemann, fui morar nos Estados Unidos para trabalhar numa plataforma de petróleo, só via sol e mar”, contou seu Walter.

“Para continuar as caminhadas lá na plataforma, eu dava umas 50 voltas no heliponto, meus colegas diziam que eu era louco”, completou ele, que nunca apreciou os charutos cubanos e nos Estados Unidos também criou gosto pelos cachimbos. “Tenho 15 cachimbos de luxo em casa”.

A Dannemann, atualmente, só produz 150 mil charutos especiais em uma área de 1.000 hectares, disse o diretor do escritório em São Félix Geraldo Meneses. A empresa especializou a produção ao ponto de ter até a própria semente. Na fazenda, são produzidas 10 milhões de mudas de tabaco por ano.

Parte da produção da folha in natura é para capas de charutos que são exportadas para a Europa. “Posso afirmar sem medo que aqui produzimos a melhor capa do tipo Sumatra do mundo”, afirmou Menezes.

A qualidade do produto exige também muita água: a empresa possui reservatórios com capacidade total para 280 milhões de litros, que é quase todo utilizado na época que tem menos chuva na região.

“Hoje a nossa prioridade é a produção de qualidade, não estamos preocupados com quantidade. Mantendo a qualidade, fazendo charutos melhores, podemos conquistar cada vez mais mercados”, disse Menezes.

*** 

Como são feitos os charutos?
Todo charuto, seja ele cubano ou baiano, é elaborado por etapas. A primeira é a preparação da terra para a semeadura e o plantio. Depois de alguns meses é a vez da colheita e da secagem. Nesse período, as folhas e o fumo são mantidas em uma espécie de estufa. Na etapa final, ocorrem a fermentação e a classificação. A real diferença entre os charutos cubanos e nacionais é o preço. Os nacionais chegam a custar 50% menos. Da plantação da semente até o charuto ficar pronto, leva 3 anos.

***

Impostos pagos pela indústria do tabaco, segundo a Receita Federal até 24 de novembro de 2017:

ANO

CIGARROS

CHARUTOS

2017

5.500.157.418,19

4.407.187,71

2016

7.098.283.188,57

3.034.375,66

2015

7.118.879.622,27

2.419.116,41

2014

7.190.452.002,94

1.668.890,48

2013

6.722.130.755,24

1.660.017,68

2012

5.812.297.152,73

2.577.916,67

2011

5.351.649.940,20

3.033.237,49

2010

5.088.091.578,03

2.130.587,57

2009

4.464.516.202,09

1.267.692,41

2008

3.767.755.689,18

1.172.169,85

 ***

Panorama das outras culturas
Cachaça: 
a Bahia produz cerca de 800 mil litros por ano em 25 alambiques, a maioria deles situado na Chapada Diamantina. A cachaça Abaíra, da mesma cidade, lidera a produção, com cerca de 100 mil litros por ano. As marcas mais conhecidas são a Abaíra, Serra das Almas (Rio de Contas), Rio do Engenho (Ilhéus), Engenho Bahia (Ibirataia) e Matriarca (Teixeira de Freitas). Essas marcas mais conhecidas, com exceção da Abaíra, que produz muito porque é uma cooperativa de produtores, têm produção de 20 mil a 30 mil litros por ano. O mercado consumidor é Nordeste e Sudeste. A que exporta mais é a Serra das Almas, para Europa e Estados Unidos. O litro dessas cachaças custa em média R$ 30.

Café: A produção de café arábica de 2017 está estimada em 981 mil sacas, queda de 22,6% em relação a 2016. Isso se deve a estiagem dos últimos cinco anos, que arruinou 30% do café arábica produzido em área de semiárido da Bahia. Em 2013, antes dos problemas com a estiagem, a produção era de quase 1,4 milhão de sacas para o estado, que é o quinto maior produtor da variedade no país. Em contrapartida, graças ao clima favorável, a colheita de café conilon vem se recuperando. Cultivado no Extremo Sul da Bahia, as lavouras foram beneficiadas este ano por chuvas em bom volume e devem produzir mais de 2 milhões de sacas em 2018.

Cacau e chocolate: No sul da Bahia, os produtores de cacau atribuem à estiagem dos últimos dois anos à queda na produção deste ano. A safra chamada pelos produtores como ‘temporã’, cuja colheita vai de maio a setembro, por exemplo, registrou em 2017 a segunda pior produção de cacau da história: 36.876 toneladas de cacau, ante 43.374 toneladas em 2016 e 94.836 toneladas em 2015. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) estima que a safra 2016/2017 da Bahia deve ficar em 104.820 toneladas de cacau, ante as 145.630 toneladas de 2015/2016. A safra principal está em fase inicial e vai até abril. Em Ilhéus estão 15 fábricas de chocolate, responsáveis pelo beneficiamento de praticamente todo o cacau produzido no Brasil. Devido a falta de cacau, elas estão recorrendo a importação. Até março, a previsão é de que cerca de 60 mil toneladas sejam importadas de Gana, na África.

Fonte: Jornal Correio da Bahia.

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