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Livro mostra a escravidão brasileira muito além do senso comum

  • 12 de dezembro de 2017 - 13:13
O comércio de rua era a principal atividade das negras libertas (Foto de Marc Ferrez, 1875)
Autor do best-seller Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (2009), o jornalista e escritor paranaense Leandro Narloch, 39, lança o bom livro Escravos (Sextante | R$ 39,90/impresso e R$ 29,90/e-book | 208 páginas), no qual, a partir da biografia de 28 escravos brasileiros, ele percorre três séculos de escravidão e suas várias fases.

Com personagens fascinantes, o objetivo do livro – que inaugura a coleção Achados e Perdidos da História – é mostrar que “a escravidão brasileira foi mais diversa, completa e interessante do que imaginamos”. Confira a entrevista.

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O jornalista e escritor Leandro Narloch lança o livro Escravos, com a vida e o cotidiano de 28 brasileiros esquecidos pela história (foto/Divulgação)

Como surgiu a ideia da série Achados e Perdidos da História e por que a decisão de selecionar 28 personagens no livro Escravos e não um número maior?  

Ao escrever o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, percebi que havia muitas histórias boas de escravos para contar. O tema escravidão se desenvolveu muito nas últimas décadas – historiadores encontraram muitas histórias e dados em registros de cartório, batismos, testamentos e processos judiciais. Decidi escolher algumas histórias surpreendentes para fazer um livro mais narrativo, menos afirmativo que os anteriores. Geralmente, ao estudarmos história, falamos sobre classes sociais, países, políticos, e esquecemos da vida concreta, das pessoas reais. Por isso decidi focar em personagens.

No final do século XIX, Joaquim Nabuco disse: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Em que nível, ao seu ver, essa afirmação permanece verdadeira, atual?

 Sim, não há dúvida que a escravidão explica um bocado do Brasil hoje. Mas não sei quanto. A situação atual do país, a miséria e a desigualdade também têm a ver com elites predatórias que buscam privilégios por meio da política, e não competindo no mercado, oferecendo produtos e serviços melhores ou mais baratos que a concorrência. A demografia também explica bastante. Por muito tempo, por falta de informação e de modelos a seguir, famílias pobres tiveram muito mais filhos que as ricas. Dividiam a renda com mais pessoas, investiam menos na educação de cada filho e forneciam ao mercado muitos trabalhadores pouco qualificados, o que baixava o salário deles. Nas famílias ricas aconteceu todo o contrário. A demografia foi a maior máquina de desigualdade do Brasil.

Um aspecto interessante do  livro é mostrar que, ao contrário do senso comum, não houve só uma escravidão no Brasil. Mas várias, com diversidade e complexidade, inclusive na forma da relação entre os senhores e os seus escravos, entre as leis e os escravos. Por que apenas a partir dos anos 1990 os historiadores brasileiros  passaram a pesquisar mais os arquivos com documentos e registros sobre a escravidão? 

Principalmente porque a partir dos anos 90 surgiram muitos cursos de pós-graduação em história. De repente, pesquisadores jovens descobriram arquivos repletos de preciosidades da escravidão. Além disso, a ditadura acirrou muito os ânimos dos intelectuais, que se tornaram militantes, partidários. Com a democratização, visões menos politizadas ganharam espaço.

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‘Negra com seu filho’: foto histórica de Marc Ferrez feita em Salvador, Bahia, em 1884, com a escrava vendendo alimentos (foto/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo IMS)

Em 1890, o então ministro Rui Barbosa mandou queimar registros da escravidão para evitar que os antigos senhores pedissem indenização ao governo pela perda dos escravos, num desserviço à história. Qual o volume desse material destruído?

Não tenho ideia, mas o fato é que sobraram muitos documentos. Registros de óbito, de batismo, acordos comerciais, processos na Justiça, relatos de viajantes, testamentos de centenas de paróquias… muita coisa foi preservada.

Resuma as principais diferenças entre os pensamentos acadêmicos de Gilberto Freyre (anos 1930), Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso (1960) e os historiadores dos anos 1990 sobre a escravidão. 

Gilberto Freyre afirmou que a escravidão brasileira, comparada à dos Estados Unidos, foi “suave”, “branda”, em que “o senhor era generoso e o escravo, leal”. A Escola Paulista dos anos 1960 retratou a cena oposta: muitos castigos, separação de crianças das mães, uma crueldade generalizada. Ao ler tantas biografias de escravos, cheguei à conclusão que os documentos justificam as duas visões. Há tanto casos de escravos rebeldes e terrivelmente castigados quanto aqueles que estabeleceram uma relação de confiança e amizade com os senhores. Dá para entender essa dualidade. Para não ter prejuízo com fugas, retaliações e revoltas, é racional para um senhor não atazanar demais os escravos. Para não perdê-los por doenças ou morte, deveria evitar extenuá-los. Mas nem todos os senhores eram racionais. Muitos eram cruéis e essa crueldade frequentemente desencadeava retaliação dos escravos. A teoria dos jogos dá conta tanto da visão de Gilberto Freyre quanto da Escola Paulista.

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Joias e roupas das negras libertas intimidavam mulheres brancas pobres.  Elas eram o segundo grupo social mais rico de algumas cidades mineiras (Jean-Baptiste Debret/Div)

Em uma época de força do conceito do politicamente correto, você acha que o livro pode desagradar àqueles que acreditam que a escravidão era só brutalidade e castigo físico (uma marca daquele sistema, é verdade)?  Quem pensa assim, por exemplo, se surpreenderá com a história de Joanna Baptista, uma mulher livre de Belém, no Pará, que se vendeu como escrava; ou a do ex-escravo João de Oliveira, que se tornou traficante de negros na África e que, ao saber que a viúva do seu antigo dono passava por dificuldades em Salvador, mandou dois escravos de presente para ela.

Sim, os militantes que  tratam a história como discurso político talvez se sintam desagradados. Mas à toa, pois o livro detalha toda crueldade e injustiça da escravidão. Só mostra que ela era muito mais complexa do que imaginamos.

Aliás, nos dias brasileiros atuais de extremismos, distorções e dedos digitais nervosos, você não acha que ser politicamente correto passou a ser meio associado à “esquerda” e politicamente incorreto à “direita” (risos)? 

Acho que sim, mas também existe um politicamente correto da direita. Os dois lados tentam nos vestir camisas de força, impedir certas afirmações e reflexões. A polêmica sobre a performance com um homem pelado em São Paulo deixou isso claro.

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A escrava Marcelino virou amante do marido de sua antiga senhora e passeava na Corte, no Rio (Reprodução)

Como você fala na abertura do capítulo sobre Rosa (escrava do então povoado do Rio Vermelho, em Salvador, que sofria castigos físicos terríveis nas mãos dos senhores, que foram escravos), os negros vindos da África não foram apenas sujeitos passivos na história. Onde você pesquisou sobre Rosa?  

O historiador Richard Graham trata em poucas linhas desse caso no livro Alimentar a Cidade. Gostei muito da história e fui atrás de detalhes no Arquivo Público do Estado da Bahia, uma excelente instituição.

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Mulato, o traficante baiano Francisco Félix de Souza, o lendário Chachá, fez riqueza no Daomé.  Sua fortuna impressionava até os nobres europeus(Reprodução)

Na história,  o povo africano não foi o único a ser escravizado, sem falar no costume guerreiro que existia na África de se escravizar as tribos vencidas. O Daomé era um reino cuja principal atividade econômica era o comércio de escravos. Os próprios portugueses traficaram asiáticos antes de mudar o foco para a África, cuja “carga humana” era mais valiosa e o custo de viagem, menor.  A partir de que século o termo “escravo” se tornou quase um sinônimo de “negro”? 

 Sim: os chineses, indonésias e japoneses também foram muito escravizados pelos europeus. Mas como a viagem da China ao Brasil era longa demais e, principalmente, porque valia mais a pena encher o navio com especiarias, a escravidão que vingou foi a africana. Havia muitos escravos asiáticos em Lisboa até o século 18, mas a partir dali a africana predominou, e “escravo” e “negro” passaram, infelizmente, a ser quase sinônimo.

Fonte: Jornal Correio da Bahia.

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