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Música, teatro e cozinha regional: Pelourinho Dia e Noite será relançado em outubro

  • 19 de setembro de 2017 - 09:58

Imagine sair do velório de Quincas Berro D’Água e parar no Cabaré da Zazá. Depois, que tal escutar o som de uma orquestra popular e aproveitar um encontro de rodas de samba na Praça da Sé? O passeio, que ainda pode incluir um cineminha no meio do Largo do Santo Antônio, pode terminar com uma feijoada no Largo de São Francisco. Como companhias, estão garantidos nomes que vão de Gregório de Matos e Luiz Gonzaga.

Por trás desse caldeirão de atividades, está o novo programa Pelourinho Dia e Noite que, reformulado, promete agitar o Centro Histórico de segunda a domingo. A partir de outubro e até dezembro, serão pelo menos 11 atividades culturais por semana, divididas entre apresentações de música, dança, gastronomia, artesanato, fotografia e cinema.

De acordo com a diretora-geral de Gestão do Centro Histórico, Eliana Pedroso, a proposta é trazer os nativos para o Pelourinho. “Queremos incrementar o fluxo de soteropolitanos, requalificar o imaginário do Centro Histórico e agregar mais valor ainda, porque valor ele já tem. Estamos criando novos conteúdos culturais para que a gente possa mobilizar os soteropolitanos e, em seguida, incrementar o fluxo turístico”, explica.

Ao todo, serão investidos cerca de R$ 600 mil em toda a programação, que será inaugurada no dia 5 de outubro. Na ocasião, uma abertura festiva deve percorrer as ruas do Pelourinho apresentando um pouco de cada atração – o prefeito ACM Neto deverá estar presente. Ao longo dos três meses do projeto, a previsão é de que mais de 300 artistas participem pelo menos uma vez. Para conferir as atrações, visite o site do Pelourinho Dia e Noite.

Roteiro de arte e gastronomia
Um dos destaques será o chamado o Circuito Jorge Amado, que trazer Quincas Berro D’Água vivo – e morto – às ruas do Centro Histórico toda sexta-feira. Com direção de Edvard Passos, direção musical de Luciano Bahia e canções do músico Gerônimo, o espetáculo vai reproduzir passagens do livro de Jorge Amado. “Vai ser um espetáculo itinerante em cima do contexto de Quincas. Começa no velório, sobe as ladeiras e acaba no Cabaré da Zazá, que vai ser dentro da Cantina da Lua”, adianta Eliana.

De quarta a sábado, grupos de percussão, como o Kizumba, Tambores e Cores, Meninos da Rocinha e Didá, desfilarão pelas ruas do Centro Histórico, a partir do Largo do Pelourinho e até o Terreiro de Jesus. A música vai embalar toda a semana com os ensaios de portas abertas das orquestras dos maestros Bira Marques, Fred Dantas, Hugo Sambone e Ângelo Rafael nas igrejas da região, e com o Viradão do Samba – o encontro de rodas de samba na Terça da Benção, a partir das 19h.

Aos domingos, o teatro se junta à gastronomia no Domingo Gastronômico. Pelo menos 10 restaurantes do Largo do Pelourinho serão palco para que personagens históricos baianos e nordestinos ganhem vida sob a dramaturgia de Aninha Franco. Gregório de Matos, os alfaiates da Revolta de 1798 (também conhecida como Conjuração Baiana), Mãe Menininha do Gantois e Luiz Gonzaga já confirmaram presença.

O chef João Silva, do Cuco Bistrô, vai assinar uma feijoada inspirada no livro de Manuel Querino (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Mas os restaurantes não vão servir apenas de cenário: cada um deles vai reproduzir ou recriar um prato da obra A Arte Culinária da Bahia, escrito em 1928 por Manuel Querino.  O Cuco Bistrô, por exemplo, vai trazer uma receita autoral do chef João Silva. “É uma feijoada gratinada, uma releitura de nossa cozinha criativa. Vai ter um torresmo muito crocante, muito diferente”. O prato será vendido por R$ 50, incluindo a sobremesa (um tradicional quindim de Iaiá).

Já o Villa Bahia será fiel à receita de efó e do xinxim de galinha, segundo o chef Guto Lago. “Achamos que a baianidade está se perdendo na gastronomia. Além disso, a própria cidade não frequenta o Pelourinho, então, acho muito válida essa iniciativa para fomentar o comércio. A gente precisa disso”, afirma o chef. A iguaria vai custar R$ 49,90.

A programação ainda inclui concursos relâmpago de fotografia por celular para jovens de 14 a 24 anos (sempre aos sábados, no Terreiro de Jesus) e um cinema a céu aberto, com telão instalado no Largo de Santo Antônio. “(A programação) Era uma demanda de comerciantes. Eles viviam dizendo que o Pelourinho estava deserto e sem qualquer atração cultural. Como a prefeitura, só detém o domínio das praças públicas, tivemos que ter muita criatividade para construir um programa dessa envergadura”, completa Eliana Pedroso.

Imagem negativa
Para quem vive do Pelourinho, as coisas andam mesmo muito difícil. Por enquanto, para a chefe de fila Marilene Rodrigues, 47 anos, o adjetivo ‘deserto’ descreve bem a noite na região. “Eu tenho medo de voltar para casa à noite porque é deserto. Essa imagem de medo é que domina, porque não necessariamente existe motivo, mas o pessoal tem medo de sair do carro, estacionar lá embaixo e receber uma faca na cintura num assalto quando caminha até o restaurante”, explica.

A chefe de fila Marilene Rodrigues diz que tem medo de voltar para casa à noite, de tão vazio que o Pelourinho fica (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Proprietário do restaurante Cuco, o empresário José Iglesias Garcia tem outros três empreendimentos no Centro Histórico. Ele também diz que não entende o motivo de o Pelourinho não ser frequentado pelos moradores de Salvador. “Aqui, existe uma sensação de insegurança, às vezes pelas abordagens, mas o Centro Histórico em si, é muito tranquilo. Raramente tem assalto à mão armada”.

O Cuco não abre aos domingos – a exceção vai ser justamente para os Domingos Gastronômicos – porque ele acredita que não vale a pena. “Não cobre nem os meus custos, porque não tem movimento”. Junto com outros três restaurantes, paga por música ao vivo toda noite no largo – os quatro desembolsam, juntos, R$ 9 mil por mês. Há três anos, quando o estabelecimento foi inaugurado, só 20% dos frequentadores era local. Hoje, a proporção está em 50%-50%. “Houve um declínio acentuado do turismo não só aqui, mas no Brasil todo”.

A trançadeira Luzinete de Jesus, 47, mais conhecida como Valda, é categórica: do jeito que está, não dá para ficar. Em dois anos, ela acredita que viu sua clientela diminuir em até 60%. Nem mesmo os turistas estão procurando tanto pelo serviço, já que a maioria vem acompanhada de guias turísticos, o que diminui o tempo de permanência no local.

Tem dias que Valda não faz sequer uma trança (Foto: Marina Silva/CORREIO)

As tranças mais baratas custam R$ 10 e chegam a R$ 100, quando a pessoa quer fazer alongamento capilar. “Tem dias que não faço nenhuma. Quando cheguei, há 25 anos, dava para fazer uma casa com isso aqui. O dinheiro hoje só dá para comer”, desabafa Valda, que critica a falta de serviços como banheiros públicos à disposição.

Até mesmo estacionar por ali é uma dificuldade. De acordo com a prefeitura, hoje, cerca de 1,2 mil vagas – entre particulares e Zona Azul – estão disponíveis no Pelourinho. Mesmo assim, a estrutura recebe muitas críticas. “Só de despesa para estacionar é muito caro. Tem estacionamento que cobra R$ 20.

Nenhum outro estado do país tem um Centro Histórico como o nosso, mas você não vê gente aqui”, lamenta o comerciante Vicente Ferreira, 53, que sugere medidas como criação de novas vagas de estacionamento e descontos para quem consumiu na região.

Só para levar visita
De fato, a percepção dos comerciantes não está errada. De acordo com um levantamento da Associação de Comerciantes do Pelourinho (Acopelô), apenas 58% dos baianos que vão ao Centro Histórico só tem um objetivo: acompanhar um forasteiro numa visita. O restante se divide entre os 24% que aportam lá nos grandes eventos e os 18% que são os que vivem do bairro, de alguma forma.

Os números são de 2015, mas, segundo o presidente da entidade, Clarindo Silva, não poderiam ser mais atuais. “Acho muito importante ter esses eventos culturais, porque esse é um momento que o Pelourinho está sangrando. Precisamos de uma campanha para que o povo baiano se aproprie desse lugar, porque nem todo mundo consegue ver a beleza dessa joia”, opina.

Segundo Clarindo, o movimento caiu mais de 30% nos últimos dois anos (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Para seu Clarindo – que é um dos fundadores da Terça da Benção e, com seus trajes brancos já virou um dos principais personagens, do Pelourinho –, a região ganhou um estigma injusto de local violento. Com a queda no movimento (ele estima uma redução de 30% em dois anos), 186 estabelecimentos fecharam as portas no Pelourinho, nos últimos seis anos.

A ideia é que o Pelourinho Dia e Noite não deixe existir após essa primeira temporada. Em janeiro, a Diretoria de Gestão do Centro Histórico já deverá iniciar a segunda fase do programa. “Ele (o Pelourinho Dia e Noite) vai certamente ter continuidade. Essa primeira etapa é para que a gente possa avaliar e ajustar as propostas artísticas para o segundo momento, a partir de janeiro”, garante Eliana Pedroso.

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